sou feia ou sou latina?
em terra de padrão, quem não é se sente a maior bigoduda feiosa
Acordar mais um dia se sentindo a maior baranga do pedaço é sentimento frequente desde que eu aprendi o que é ser bonita pra sociedade (e entendi que não era meu caso), mas tem sido ainda mais frequente desde que vim morar fora do Brasil.
Eu, obviamente, sou bem diferente das locais.
Minha pele é morena, tenho cabelo preto e cacheado, nem curto, nem comprido, com uma mecha que não é nem loira, nem branca; não sou gorda, nem magra, mas sou definitivamente mais pesada e com estrutura mais larga do que a média parisiense.
A água também não me ajuda, meu cabelo tá parecendo uma espiga de milho porosa e sem definição. Morro de medo de ganhar mais peso, porque seria dar mais passos pra longe do que é considerado bonito.
Quem me conhece talvez diga que é exagero, mas essa é minha sensação desde que eu entendi o que é ser bonita — e piorou desde que eu vim pras terras de quem inventou o que é ser bonito e impôs ao mundo inteiro.
Foi aqui que definiram que bonito mesmo era ser loira, (bem) branca e curvilínea, e imprimiram isso em quantos quadros e estátuas conseguiram. Aí levaram essa visão pra onde fincaram suas espadas e bandeiras.
Depois, a coisa foi mudando. Primeiro que, agora, quem dita o que é bonito não é mais a Europa, mas o atual maior colonizador Estragos Unidos da América.
O que é bonito também variou: ora a mulher mais magra, ora com lábios mais carnudos, quem sabe com o cabelo de ondas voluptuosas — ou muito muito liso…
Nenhuma delas sou eu ou parece comigo.
E viver entre mulheres magras, brancas e cuidadosamente vestidas, mesmo quando parecem estar de pijamas, tem feito com que eu me sinta feia desde o dia 1 na França.
seria só eu me arrumar mais? comprar roupas novas? um corte de cabelo novo? usar maquiagem?
será que vão caçar minha carteirinha de feminista?
será que vão me mandar ler o mito da beleza (de novo)?
quantas vezes esse sentimento de insuficiência — que passa pela aparência, mas nem de longe só se refere a ela — vai me assaltar a ponto de eu parar tudo que tô fazendo pra escrever?
é tudo inútil
ser padrão até poderia ser um objetivo de vida a perseguir, mas… isso realmente me faria ser mais aceita? será que eu realmente sentiria que é suficiente em algum momento ou esse seria o resultado?
não tenho nenhuma conclusão, cara pessoa que chegou até aqui. sigo sendo uma latina bigoduda e com o cabelo desgrenhado.






Do Brasil à França e em qualquer canto desse mundinho adoecido, que a gente consiga diminuir o volume dessas vozes colonizadoras que nos cegam pra nossa própria beleza 🌹
De fato, essa autopercepção depreciativa corrói as nossas vivências. Eu compartilho também dessa percepção de que “ em terra de padrão, quem não se sente a maior bigoduda feiosa”. Eu sinto que não aproveito a experiência do local, porque eu estou me sentindo mal ou, então, estou me comparando com outras mulheres, o que me leva a me sentir mal. Eu fico tão focada nisso que esqueço de olhar a minha volta. Enfim, o que ajudou a amenizar a minha dor foi compreender que eu estava terceirizando a minha autoestima. Isso significa dizer, eu não estava me olhando e sim estava olhando através do olhar do outro sobre mim.